Parte da história de Fortaleza morre com o incêndio de grandes proporções na Sucata Chico Alves
"Seu" Chico e sua sucata no bairro Jacarecanga.
Foto: Fabiane de Paula.
A capital alencarina, Fortaleza (CE), se observada, em cada um dos seus bairros, possui algum ponto que com ele há uma identificação pela sua história, pela vivência dos seus habitantes. No bairro Jacarecanga, por exemplo, a Sucata Chico Alves vem sendo referência há 55 anos, comercializando materiais usados de toda natureza, desde peças para automóveis e aviões, caixas d’água, aparelhos sanitários, telhas de amianto, materiais hidráulicos e elétricos, até pisos antigos para residências, cujas peças não são mais encontradas nos depósitos de material de construção.
Mas, infelizmente na noite da véspera de Natal, 24 de dezembro de 2025, a Sucata Chico Alves foi tomada por um incêndio de grandes proporções, que atravessou toda a madrugada e a manhã do dia 25.12.2025, propagando-se rapidamente com a força dos ventos, deixando: 4 pessoas feridas, mas sem gravidade (dois bombeiros militares que foram prontamente atendidos e voltaram para esta atuação operacional; e duas pessoas da região: um adolescente, que foi atendido e liberado; e uma senhora, que apresentou um quadro de mal súbito e foi encaminhada para a UPA); 3 cachorros e uma gata, esta denominada por Nina (ambos criados pelo proprietário da Sucata e viviam em sua casa, localizada dentro do terreno do empreendimento) mortos; além de outros animais da vizinhança que também ficaram feridos pelas chamas e encontram-se desaparecidos.
O desespero dos moradores foi comovente, ao passo que os bombeiros (acionados por volta das 23h30, via Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança - CIOPS; em que foram mobilizadas: - 19 viaturas; - mais de 50 destes profissionais que contaram com apoio de voluntários e, utilizaram, até a manhã do dia 26.12.2025, cerca de 450 litros de água para o combate às chamas). Estes profissionais trabalharam por 4 dias consecutivos (até 28.12.2025) com afinco, para debelar os últimos focos que persistiam em arder. Durante os trabalhos, trechos das avenidas Sargento Hermínio e José Jatahy foram bloqueados pela Polícia Militar cearense.

Foto: Thiago Gadelha.
Conforme informações oficiais, o estabelecimento não possuía o certificado definitivo de conformidade do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará (CBMCE), documento obrigatório que atesta as condições de segurança de edificações comerciais. O senhor Chico Alves já havia dado entrada no pedido, apresentou o projeto, os bombeiros fizeram uma vistoria, mas se depararam com algumas inconsistências entre o projeto e a auditoria, de forma que o processo de certificação não estava completo, mas em curso para aprovação.
Segundo testemunhas, o fogo teve início após adolescentes soltarem bombas caseiras, conhecidas como "rasga-lata", perto da Sucata. Essa informação não foi confirmada pelos bombeiros, mas as investigações estão em curso.
Prejuízos ocasionados pelo incêndio da Sucata Chico Alves em Fortaleza
Após o incêndio, o que restou foi tamanha destruição da maior parte do prédio da Sucata (que tinha uma estrutura de três andares), que fora transformado em um amontoado de cinzas e de destroços. Os prejuízos afetaram também a vida de muitos moradores da região, que enfrentaram dificuldades iniciais: como a falta de água e energia elétrica; deixar suas residências às pressas em plena véspera de Natal; muitos dos pertences precisaram colocá-los na rua, de frente para as casas, ou ao lado, na avenida José Jatahy, com moradores e amigos revezando-se para cuidar dos itens, enquanto o fogo consumia a Sucata.

Foto: Fabiane de Paula
Nas casas vizinhas, bem como nas árvores dos arredores, muita devastação. Pelo menos 8 residências foram atingidas por este incêndio, em que 5 foram totalmente interditadas pela Defesa Civil de Fortaleza (DCFor), e 3 foram parcialmente interditadas. Além de um bloco de apartamentos afetado e seus moradores aguardavam o resultado da vistoria que estava sendo realizada pela DCFor.
Tanto a Enel Distribuição Ceará (com a função de fornecer energia elétrica), quanto a DCFor (responsável pelas vistorias das residências localizadas nas proximidades da Sucata), precisaram aguardar o término dos trabalhos do Corpo de Bombeiros e receberem autorização para atuarem.
O capitão Romário Fernandes, do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará (CBMCE), responsável pela atuação das equipes no incêndio registrado nesta Sucata, explicou que o quartel do CBMCE, ficar na proximidade da ocorrência, permitiu uma resposta foi imediata. E destacou a importância da ação rápida para evitar danos maiores, já que o local possuia grande concentração de material inflamável e estar cercado por imóveis residenciais e comerciais.
A rápida reposta permitiu que o incêndio não tomasse proporções ainda maiores, porque se trata de um local com altíssima concentração de material combustível e cercado de casas e de lojas. É um local potencialmente muito perigoso e a atuação rápida permitiu que a situação não fosse pior ainda,
Quem é Chico Alves?

Foto: Thiago Gadelha.
Nascido em Catolé do Rocha - no Sertão Paraibano, viúvo há 31 anos, conheceu a esposa na Paraíba e, dessa união, nasceram 4 filhos — 2 mulheres e 2 homens, Francisco Alves de Oliveira - o Chico Alves, iniciou a vida nos negócios ainda criança. Filho de comerciante, aos 5 anos já realizava pequenas negociações — a primeira delas foi a troca de uma bicicleta por um cavalo. Aos 9 anos, abriu a própria bodega no interior da Paraíba, aprendendo cedo a economizar e a reinvestir cada centavo que ganhava. Sua juventude foi marcada pelo trabalho intenso.
Antes de chegar ao Ceará, atuou como taxista e passou por cidades de diferentes estados do Nordeste, como Mossoró (RN), São Luís (MA) e Teresina (PI). Sempre atento às oportunidades, começou a aplicar as economias na compra de imóveis de baixo valor, estratégia que se tornaria uma das marcas dele como empreendedor.
Escolha pelo Ceará
Natural da Paraíba, Chico Alves residia em Mossoró (RN) na década de 1970, quando optou por uma mudança definitiva para tentar a vida na capital cearense, Fortaleza. Ao chegar em terras alencarinas, retomou o trabalho como taxista, chegou a montar uma frota com cerca de 30 veículos, e adquiriu um terreno alagadiço na esquina da via com a Avenida José Jatahy (localizada no bairro Jacarecanga), este que precisou ser aterrado. E foi nesse período que surgiu, quase por acaso, o embrião do que seria a Sucata Chico Alves.
Para reduzir custos de manutenção, o empresário passou a comprar peças usadas em oficinas e a estocá-las em casa. Logo percebeu que colegas de profissão também se interessavam pelas peças seminovas. Tão logo, a atividade mostrou-se lucrativa e Chico vendeu os táxis; ampliou os investimentos em imóveis; decidiu mergulhar, definitivamente, no comércio de peças usadas e sucata em geral. O negócio cresceu de forma contínua, impulsionado pela política adotada pelo mesmo, ou seja, "não perder negócio".
Patrimônio Gigante
Em 1988, o patrimônio do empresário já impressionava, pois detinha dezenas de imóveis alugados; 8 fazendas; e a Sucata (esta que funcionava em um prédio de três pavimentos, construído pelo próprio Chico Alves, além de amplos pátios abertos, onde estavam armazenadas milhares de toneladas de materiais).

Foto: Reprodução/Programa Caminhão e Cia - exibido pela TV Diário em 2016.
Antes deste último incêndio, pois Chico Alves alegou ter ocorrido mais outros dois, era possível encontrar em sua Sucata, desde peças de automóveis e caminhões — antigos e modernos — até eletrodomésticos, louças sanitárias, cerâmicas fora de linha, portas, janelas, trilhos de trem e equipamentos industriais.
Ao longo da existência, este seu estabelecimento ganhou relevância, oferecendo uma grande variedade de produtos, chegando a ter 153 funcionários trabalhando na logística e no atendimento aos clientes. Porém, atualmente não teria nem 20 colaboradores, conforme Chico Alves.
O que existia dentro da Sucata Chico Alves?
O empreendimento, que funcionava em um prédio de 3 andares, ocupavam quase todo um quarteirão, comercializando peças automotivas usadas, sucatas metálicas, materiais recicláveis e outros objetos.
Entre os itens mais inusitados, podem ser citadas peças e pneus de avião (adquiridos em leilões e desativações de aeroportos); cofres; carcaças de caminhões; cabines de picapes clássicas; além de pianos; acordeons; rádios antigos; telefones de época; carro de Fórmula 1; e karts guardados sob camadas de sucata.
Chico Alves estima que havia cerca de 100 carros na Sucata, entre eles alguns veículos novos, recém-comprados por ele. Dentre esses carros, um dos três que a sua esposa deixou, um Versailles que segue estacionado em frente ao ferro-velho, congelado no tempo e longe das chamas que consumiram os demais.
Reação de Chico Alves diante do incêndio na sua Sucata
Chico Alves, de 85 anos, que não se machucou com o incêndio, pois estava hospitalizado quando tudo aconteceu, na manhã de 29 de dezembro de 2025, 6 dias após o incidente de grandes proporções em sua Sucata, estava sentado em uma cadeira de plástico na calçada do empreendimento, observando os escombros, as cinzas e seus funcionários removendo sacos de entulhos do local.
Emocionado e incrédulo, Chico Alves afirmava para quem estava próximo:
De tudo, o que me dói e corta o coração é a gata. A minha Nina, que dormia na rede mais eu. Esses troços e bagaços não valem nada pra mim. Mas, minha gata e meus três cachorros, eu queria muito bem. Nasceram aqui e viveram aqui. Este incêndio foi o terceiro da história da minha Sucata, mas o maior. Não teve nenhum que queimasse nem 10% do que queimou agora. Teve um que foi até grande, queimou 35 carros e muita mercadoria. Mas agora destruiu muito. Não entendo isso não, pois o sistema hidráulico dos bombeiros estava todo funcionando, mas não ligou nenhum. Eu não posso fechar.









